25/03/2021 | Germed Saúde

Epidemia de fake news ameaça vacinação em terras indígenas

Um helicóptero da Força Aérea Brasileira carregado de agentes de saúde e doses de vacina contra o coronavírus levanta voo em Lábrea, no sul do Amazonas, rumo à terra indígena dos Jamamadi. Povo de contato recente, os Jamamadi fazem parte, como todos os 410 mil indígenas adultos em aldeias do Brasil, do grupo prioritário para receber o imunizante. Ao pousar, às margens do rio Purus, o helicóptero é recebido por homens e mulheres com arcos e flechas pedindo a retirada da equipe. Eles dizem temer pela própria vida se tomarem a vacina e exigem o retorno de um missionário americano proibido de entrar na região pela Funai. Querem orientações dele sobre a imunização. A aeronave tem de levantar voo com o carregamento de vacinas intacto. O incidente, no dia 2 de fevereiro, foi descrito à BBC News Brasil por testemunhas que pediram para não serem identificadas. Temem abalar a relação entre equipes de saúde e indígenas. Esse nível de tensão é incomum, mas cada vez mais frequente. E ilustra um fenômeno grave. Em meio à pandemia, indígenas estão vulneráveis a outro tipo de vírus, as chamadas "fake news", que se espalham principalmente pelo WhatsApp nas comunidades indígenas.

Para o comunicador e empreendedor indígena Anápuàka Tupinambá, as ferramentas de comunicação instantânea permitiram "um salto" em ações conjuntas de indígenas na área da política e da educação.

"Mas viraram também uma faca de dois gumes. Vi parentes indígenas falarem que viram que mais de 900 indígenas no Xingu teriam morrido por conta da vacina. Uma senhora com mais de 90 anos me disse que não iria se vacinar por causa disso", afirma. "Nenhuma região do país está a salvo (das notícias falsas), nem áreas isoladas como Amazônia e Pará." A ideia da "faca de dois gumes" serve também para o efeito da inclusão gratuita do uso de dados por aplicativos como Facebook, Instagram e WhatsApp em planos de celular no Brasil. Acessar a internet, para muitos brasileiros, acaba se limitando a esses aplicativos. Um simples clique "fora do pacote" para verificação de uma informação vista no WhatsApp, por exemplo, tem um custo adicional.

"O que nós temos hoje é uma falsa internet. Quando tem as fake news, você não tem como checar", diz Anápuàka. "Então dá aquela sensação de 'estou na internet', mas na verdade não, estou dentro de um sistema, quase uma 'intranet' de uma grande empresa." As limitações do WhatsApp como fonte de informação e de desinformação para muitos indígenas se soma à atuação de dois grupos com influência crescente: políticos e religiosos. "A aldeia se pergunta: 'se o presidente não tomou, como é que a gente vai tomar?', diz a enfermeira Indianara Ramires Machado, de 30 anos, vice-presidente da associação de jovens indígenas da Reserva de Dourados, em Mato Grosso do Sul, e mestranda em fisiopatologia experimental pela faculdade de Medicina da USP.

Declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao longo da pandemia que já matou quase 300 mil pessoas no Brasil ecoam nas comunidades indígenas.

"Ninguém pode me obrigar a tomar a vacina", afirmou em setembro de 2020. No mês seguinte, disse que "o povo brasileiro não será cobaia de ninguém". Depois, que não tomaria a vacina "e ponto final".

A fala que mais repercutiu nos grupos indígenas, no entanto, foi esta: "Se você virar um jacaré, é problema de você (…) Se você virar o super-homem, se nascer barba em alguma mulher ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso".

Vítimas Indígenas e vídeos falsos pelo WhatsApp

Perder os pais era o maior medo de Joel Paumari, coordenador pedagógico de um polo de educação indígena do rio Ituxi, que banha o município de Lábrea, no sul do Amazonas. E sua preocupação crescia com o número de mortes. Segundo a contagem oficial da Secretária Especial de Saúde Indígena, a Sesai, morreram até agora 615 indígenas que viviam em aldeias. A população em terras indígenas é de 517 mil, segundo o último dado disponível, o censo do IBGE de 2010.

Os pais de Joel vivem na aldeia Ilha da Onça, que fica a um dia de viagem de barco de Lábrea.

"Na minha aldeia tem internet. Meus pais não têm celular, mas meus irmãos, minhas irmãs e meus sobrinhos têm. Como estão em grupos de WhatsApp e recebem esses vídeos, eles mostram para os meus pais", conta.

Joel encaminhou à reportagem da BBC News Brasil exemplos de vídeos que circulam nos grupos de indígenas em seu WhatsApp. Um traz o pastor Silas Malafaia criticando a "vacina chinesa" e defendendo o uso de ivermectina, remédio sem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19. Outros dois trazem conteúdo falso. Em um deles, um homem narra como a vacina "acabou com a vida" de uma família, modificando seu DNA e tirando dela seu "Deus".

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