10/09/2021 | Germed Saúde

Por que teremos que reaprender a socializar depois da pandemia

Como apresentador do podcast Dear Prudence, Daniel M Lavery costuma dar conselhos diretamente de Nova York. Mas, de vez em quando, ele também revela suas próprias ansiedades, como em um episódio recente ao responder a uma solitária estudante universitária que estava apreensiva com o contato social durante a pandemia de covid-19. Lavery se identificou:

"É muito, muito difícil pensar em estar perto das pessoas de novo. Uma das coisas que mexem comigo, quando penso na possibilidade de algum dia estar novamente em uma sala lotada de gente sem máscara, é que passei muito tempo ansiando desesperadamente por esse dia, e agora, às vezes, me pego tendo meio que uma reação de pânico... Não quero ter medo, afinal é isso que eu quero. Ainda assim, há uma parte de mim que agora reage de uma maneira que eu não costumava reagir, que está aterrorizada."

Muitos de nós estão no mesmo barco. Fomos forçados a ser antissociais, pelo menos em termos físicos, há um ano já.

Como resultado, muita gente está achando estranha qualquer interação social pessoal — parece que temos que reaprender a sentar em uma sala com outro humano.

Até mesmo os sonhos se transformaram de maneiras sem precedentes, com uma tendência a pesadelos relacionados ao distanciamento social.

Então, quando as restrições acabarem, teremos que passar por uma curva de aprendizado para nos sentirmos 'normais'? Nossos músculos sociais atrofiaram de alguma forma, e teremos que "exercitá-los" novamente?

Felizmente, esses músculos são bastante resistentes, e relatos de lugares que foram menos afetados pela covid-19 sugerem que não demora muito para voltar a ter alguma versão de normalidade social.

Ainda assim, são esperados alguns contratempos no meio do caminho. Portanto, pode ser útil estar preparado para eles.

Seu cérebro em isolamento

Não é surpreendente que muitos de nós possam estar se sentindo socialmente "enferrujados".

Todos nós, em diferentes graus, vivenciamos a solidão e o isolamento social durante a pandemia, duas condições que podem estar ligadas ao declínio cognitivo de maneiras específicas.

Por exemplo, pessoas com redes sociais menores e menos complexas tendem a ter uma amígdala, centro de processamento de emoções do cérebro, menor.

A solidão crônica pode afetar os níveis de hormônios associados ao estresse e aos laços sociais; um dos efeitos pode ser uma maior propensão à depressão. Em geral, pessoas solitárias tendem a ser mais paranoicas e negativas.

O isolamento prolongado também afeta a memória e a recordação verbal. Criaturas sociais, incluindo os humanos, precisam de bastante estímulo interativo para manter seus cérebros em boas condições.

Então, se você tem tido mais dificuldade atualmente de encontrar aquela palavra que está na ponta da língua, o lockdown pode ter um papel nisso.

No meu caso, 90% do tempo agora, converso apenas com meu parceiro, em um padrão de conversação que estou bem acostumada a ter. Fico um pouco trêmula na hora de conversar com um amigo, como se fosse preciso desenterrar uma linguagem que era outrora familiar.

Quando as pessoas estiverem autorizadas a passar um tempo juntas novamente, pode ser difícil encontrar as palavras certas.

É claro que, como as circunstâncias individuais variam amplamente, o mesmo vai acontecer com a transição de volta à vida social pós-pandemia.

Uma pessoa desempregada, clinicamente vulnerável, que passou o tempo todo morando sozinha, pode se sentir mais desorientada na próxima fase do que uma pessoa financeiramente estável, que mora e trabalha em uma grande casa compartilhada.

No geral, algumas das mudanças comportamentais podem ser revertidas rapidamente com um retorno aos padrões sociais mais comuns.

Mas Daniela Rivera, bióloga da Universidade Mayor de Santiago, no Chile, acredita que as alterações físicas no cérebro, como as relacionadas à memória, não vão desaparecer tão facilmente.

Com o encolhimento de algumas partes do cérebro, a função da memória pode ser comprometida por anos após períodos de isolamento social — e com isso, nossa capacidade de nos conectarmos facilmente com outras pessoas.

Mas não é apenas como nossos cérebros podem ter mudado.

No geral, os psicólogos estão vendo mais adultos relatando estresse em relação a interações sociais, variando desde não saber como encerrar as interações sem um aperto de mão ou um abraço, até ficar sem assunto.

Mas certos grupos são fontes específicas de preocupação. A situação é especialmente delicada para pessoas com transtorno de ansiedade social.

"Manter o progresso é muito importante — porque uma vez que você não está perto de pessoas, como não temos estado há praticamente um ano, é muito fácil voltar aos velhos padrões", explica Marla Genova, ex-pesquisadora de psicologia que agora é coach de pessoas com ansiedade social e de fala.

Também há preocupações em relação às crianças em idade escolar que perderam a sincronia social durante a incerteza dos lockdowns.

"Nesta idade, o cérebro ainda está se desenvolvendo e refinando a conectividade neural; portanto, é uma fase crítica para desenvolver habilidades sociais que vão definir suas interações com seus pares", explica Rivera.

Ela receia que o isolamento prolongado possa levar alguns a desenvolver fobia social. Os idosos, por sua vez, têm maior chance de morar sozinhos e podem se sentir menos à vontade com dispositivos tecnológicos para manter o contato social. Rivera prevê que o período de ressocialização pode ter alguns efeitos em pessoas vulneráveis, como hiperatividade, intolerância, irritabilidade e ansiedade, entre outros.

Como voltar devagar

Lockdowns prolongados e culturas diferentes vão proporcionar experiências variadas à medida que os países liberarem as restrições. Mas alguns pontos em comum e lições podem ser observados.

O contato físico, um aspecto que antes era dado como certo ao estar perto de outras pessoas, provavelmente parecerá estranho por um tempo.

Para Andre Robles, que administra uma agência de viagens em Quito, no Equador, onde algumas restrições foram suspensas, "é um pouco estranho ver uma sociedade tão calorosa ser um tanto distante nos cumprimentos". "A batida de cotovelos se tornou a nova saudação de olá", diz ele. Outras pessoas estão achando estranho voltar a abraçar.

A questão que está exigindo alguma calibragem para Melanie Musson, especialista em seguros que vive no Estado americano de Montana, é descobrir as diferentes atitudes de cada um em relação ao risco de contrair a doença.

Os casos estão diminuindo lentamente no Estado, que está profundamente dividido quanto ao uso de máscaras.

"É estranho quando encontro pessoas que se preocupam com a covid", explica Musson. "Como me cerco principalmente de pessoas que não (se preocupam), vivo em uma bolha de normalidade. Tem muita gente por aí que discorda disso e que não se sente confortável, no entanto. Minha bolha estourou quando percebi que muitas pessoas não voltaram ao normal."

Na verdade, a socialização com máscara está ajudando a fazer as coisas parecerem mais normais em Cingapura, diz Roger Ho, psicólogo da Universidade Nacional de Cingapura: "A vida está como de costume, só que com máscara."

Experiências anteriores com o uso de máscaras, como durante a epidemia de Sars, e a alta adesão às exigências governamentais ajudaram.

Ho sugere que mais educação pública em lugares onde há resistência às máscaras pode ajudar a socializar dessa forma a parecer menos estranho.

Uma maneira de reduzir o julgamento sobre os encontros e o nervosismo em relação às aglomerações é restringir seu círculo social, e muitas pessoas estão relatando fazer exatamente isso.

Compartilhe esta notícia

Twitter Facebook