11/12/2020 | Germed Saúde

Siga as fibras!

Mudar hábitos que afetam a saúde para levar as pessoas ao envelhecimento ativo: esse é o mantra da medicina de estilo de vida, como escrevi na coluna passada. A alimentação é uma questão crítica, por isso a palestra da médica Daniela Kanno, uma das participantes do III Congresso de Medicina de Estilo de Vida, me impressionou bastante. Especializada em medicina de família pela USP e com pós-graduação em nutrologia e alimentos funcionais, ela enfatizou que há dados consistentes relacionando o consumo de fibras e grãos a uma menor mortalidade por doenças coronarianas, diabetes e câncer. E é na nossa microbiota, isto é, na flora intestinal que abriga trilhões de microorganismos, que está a chave para viver bem.

“A microbiota, composta de microorganismos como bactérias, arqueias, leveduras e fungos, atua sistemicamente, ou seja, afeta o organismo como um todo. Regula a barreira intestinal, ajuda na absorção de nutrientes e estimula o sistema imunológico, entre outras funções. A qualidade da alimentação tem enorme peso na composição da microbiota, mas outros fatores também influenciam, como atividade física, exposição a antibióticos, drogas e poluentes”, explicou.

Ela começa a se formar quando nascemos e, aos três anos de idade, sua composição está muito próxima da que teremos na fase adulta. “O estilo de vida da mãe influencia a microbiota da criança”, afirmou a doutora Kanno, acrescentando que o parto vaginal é vantajoso porque expõe o bebê a uma diversidade maior desses microorganismos, fortalecendo o sistema imunológico. O aleitamento materno também é fundamental para uma flora intestinal mais rica. A disbiose é justamente o desequilíbrio do sistema, causada por uma série de fatores: alimentos ultraprocessados, gorduras e açúcares; uso de medicamentos, álcool, tabaco e outras drogas; exposição ao estresse e a xenobióticos, que são compostos químicos estranhos ao organismo. A lista é grande e aí entram, por exemplo, os produtos de limpeza ou pesticidas.

A diversidade de bactérias na flora intestinal diminui com o envelhecimento, mas o estilo de vida pode mudar esse quadro. “O consumo de fibras evita que bactérias nocivas agridam a parede intestinal, causando um quadro inflamatório. As fibras protegem contra a atrofia muscular, previnem o acúmulo de gordura muscular, melhoram o metabolismo da glicose e aumentam a biogênese mitocondrial, com resultados antioxidantes”, ensinou a médica.

O médico Hildemar dos Santos, com mestrado e doutorado pela Loma Linda University, na Califórnia, ressaltou as qualidades do feijão preto, que o brasileiro vem consumindo cada vez menos: “ele aumenta a saciedade, reduz o colesterol e a glicose. Em vez de enchermos o prato de arroz e colocarmos apenas um pouco de feijão em cima, deveríamos fazer o contrário. Recomendamos, inclusive, o feijão no lugar do pão”.

Pesquisa divulgada recentemente ratifica que a dieta mediterrânea está associada a uma diminuição considerável no risco de diabetes. Rica em grãos integrais, sementes, frutas, legumes, vegetais e peixe, se assemelha ao que a medicina do estilo de vida prega: a dieta “plant based”. Pesquisadores do Brigham and Women´s Hospital analisaram dados de mais de 25 mil mulheres acompanhadas por duas décadas – aquelas que adotavam a dieta mediterrânea tinham 30% menos chances de desenvolver diabetes tipo 2.

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